Contraditóri(A)

  • O abuso é a norma

    O abuso é a norma

    ALERTA DE GATILHO: ABUSO SEXUAL/ASSÉDIO

    Os dias de chuva eram aguardados com ansiedade pelos meninos da 7ª e 8ª série. A aglomeração da saída, enquanto todo mundo esperava suys responsáveis virem lhe buscar de carro era a oportunidade perfeita para ficar atrás das meninas mais bonitas e cobiçadas e passar as mãos em suas bundas, ou onde mais fosse possível. No dia seguinte cada um se gabava das suas proezas. Todos participavam, inclusive eu.

    Era o início dos anos 1990 e pouco se falava de assédio e abuso sexual, ainda mais com adolescentes socializados como homens. Pelo contrário, a cultura do estupro era incentivada abertamente pelos homens e meninos mais velhos. Contar sobre em quem você tinha passado a mão, quem você tinha pego, mesmo quando a pessoa disse “não”, era prova de masculinidade, uma virtude.

    Ainda estou por encontrar um homem cis ou pessoa que foi socializada como homem da minha geração ou anterior que não tenha cometido algum tipo de abuso. Fomos ensinadys a abusar das mulheres e a menosprezar tudo que diz respeito ao feminino, a partir do momento em que nos definiram como “homens”.

    Por isso, acredito que seria benéfico que todo homem cis (pelo menos) passasse por algum processo de responsabilização: para identificar, reconhecer, admitir os abusos que cometeu ao longo de sua vida, todas as diferentes formas em que o patriarcado foi introjetado e persiste em cada umy de nós.

    Aquelys que dizem “não, eu nunca” provavelmente não estão olhando fundo o suficiente ou não estão querendo admitir nem para si mesmys as formas como reproduziram as violências do patriarcado. Acredito que essa relutância em admitir, em reconhecer os erros, vem muito do medo da punição1. É claro que há quem negue porque se beneficia com a manutenção do patriarcado e queira manter seu poder e privilégios, mas eu não acredito que nenhuma dessas pessoas vai estar lendo o blog de uma anarquista trans não-binária.

    Qualquer pessoa que luta sinceramente contra o patriarcado e toda forma de opressão, sobretudo homens cis brancos, precisam olhar para si e conversar sobre os seus abusos, suas violências. Não o fazer é perpetrar o silêncio que sustenta o patriarcado. É passar pano pros abusos que você e seus companheiros cometeram e ainda cometem. É manter de pé a cumplicidade masculina que silencia o quanto o patriarcado banalizou e invisibilizou os abusos.


    1. O que só nos mostra mais uma vez que punição, longe de resolver o problema, contribui com a manutenção das opressões. ↩︎
  • Espaços Perigosos e os Processos de Responsabilização

    Fotografia de dois zines sobre uma mesa. Um mostra uma foto de uma leoa na capa e abaixo escrito "Espaços Perigosos - Leituras queer sobre resistência violenta, autodefesa e luta insurrecional contra o gênero" o outro possui uma reprodução de uma gravura de um bule de chá e abaixo está escrito "The Broken Teapot".

    Estou finalizando a leitura do zine Espaços Perigosos (Dangerous Spaces) traduzido pelas Edições Insurrectas. É o segundo zine que leio que contém críticas a processos de responsabilização, o outro foi The Broken Teapot (ainda sem tradução para o português, até onde sei).

    Ambos textos tem bons pontos, como o fato de que relações de abuso possuem dinâmicas complexas que muitas vezes envolvem ambas as partes em ciclos de manipulação psicológica e violência e que as coisas não podem ser tão simples como fazer uma divisão binária entre “perpetrador” e “sobrevivente”. Nisso concordo.

    O que discordo é a crítica que vem junto de que processos de responsabilização são um reflexo do sistema judiciário estatal e que buscam pessoas culpadas para exercer punição, que são um processo “puritano”, que separa anjos e demônios.

    Isso está muito longe da minha compreensão de processos de responsabilização, que vai no caminho oposto, de reconhecer que todys temos incutidas dentro de nós as estruturas hierárquicas do patriarcado, da supremacia branca, do antropocentrismo, etc. E todys podemos inadvertidamente reproduzir em maior ou menor grau algum tipo de opressão ou violência. E os processos de responsabilização entram justamente aí para ajudar a pessoa que perpetrou alguma violência e opressão a enxergar seus atos, suas consequências e como isso afetou as pessoas que foram alvo direto, mas também a comunidade como um todo e a perceber o que ela pode fazer no futuro para não reproduzir mais tais opressões.

    Admito que não tive muitas experiências com processos de responsabilização, mas já participei de alguns com resultados positivos. Inclusive processos com moderada violência física, onde a pessoa que perpetrou a violência teve dificuldades em não enxergar o processo como um julgamento onde ela era a única pessoa que teria “errado”. Foi preciso muita conversa para eliminar essa impressão, e mostrar que nosso intuito não era apontar que existia um lado “certo” e outro “errado”, que inclusive é possível que outro lado também tenha ações pelas quais se responsabilizar. Mas que naquele momento eram as suas ações que estavam sendo discutidas, e que o processo de responsabilização era algo bom para crescermos juntys como pessoas (pois o erro de uma facilmente pode gerar identificação em outras) e deixar nossas comunidades mais fortes.

    Entendo que nem sempre, como em casos de agressões e abusos mais graves, é possível manter a pessoa que perpetrou a violência como parte da comunidade. Ainda mais em um momento histórico onde não temos fortes e bem desenvolvidas as ferramentas necessárias para cuidar da pessoa que sofreu a violência e acompanhar aquela que perpetrou para tentar ajudá-la a perceber as consequências de suas ações e como evitar isso no futuro. Então muitas vezes, por falta de recursos, precisamos escolher um lado e faz sentido escolher o lado de quem foi alvo da violência. E o banimento pode ser uma escolha difícil, mas necessária.

    A alternativa oferecida em Espaços Perigosos aos processos de responsabilização é a vingança. E embora isso possa trazer certa satisfação pessoal e restaurar a agência da pessoa sobrevivente, nem todo mundo se sente confortável e tem condições para exercer violência contra outra pessoa humana. O que restaria para elas? Além disso, a violência e a punição não são formas eficientes de transformar o comportamento de alguém. O sistema industrial carcerário tá aí pra nos provar isso. Quando muito a pessoa vai deixar de cometer o ato por medo e, no momento em que se sentir segura ou em que os benefícios superarem a punição, vai repetí-lo.

    Também busco acolher as possíveis mágoas com processos de responsabilização imperfeitos. Afinal, estamos aprendendo. Crescemos em um mundo punitivo que tenta nos encaixar em categorias binárias e nos despiu de nossa agência para lidar com esses conflitos. Romper com essas dinâmicas leva tempo e é bem provável que algumas de nós irão se machucar no caminho.

    Mas acreditar que as pessoas são complexas e podem mudar é uma das coisas que nos diferem de fascistas. E os processos de responsabilização, a meu ver, são as melhores ferramentas que dispomos no momento para reduzir as opressões, os abusos, as violências em nossos meios e fortalecer nossas comunidades para resistir ao assédio brutal do Estado e do Capital.


    Faz uns anos traduzi um capítulo sobre processos de responsabilização do livro Beyond Survival – Strategies and Stories from the Transformative Justice Movement (2020, Editora AK Press). Vou deixar aqui para quem quiser dar uma olhada.

  • Saúde coletiva, liberdade e responsabilidade individual

    Saúde coletiva, liberdade e responsabilidade individual

    Certo dia participei de uma atividade onde algumas pessoas anarquistas relataram como foram comparadas ou chamadas de bolsonaristas por não terem querido se vacinar contra a COVID-19 durante a pandemia.

    Não respondi no momento, pois achei que o assunto estava fora do propósito da atividade e não queria alimentar essa discussão. E embora concorde ser contra vacinas ou não tomar vacinas não significa que a pessoa seja bolsonarista, ou mesmo de extrema-direita, entendo que não querer se vacinar em um momento como foi a pandemia do coronavírus em 2020 é uma postura que alimenta o negacionismo científico e teorias de conspiração. Além disso de certa forma também se aproxima da extrema-direita por colocar uma suposta liberdade individual acima do bem-estar de toda comunidade.

    A saúde é, ou pelo menos deveria ser, uma responsabilidade coletiva: produzir alimentos saudáveis e garantir que todys tenham acesso a eles, garantir que água, ar e terra estejam livres de contaminantes que possam prejudicar a nossa saúde e evitar a transmissão de doenças a outras pessoas da comunidade, com um cuidado especial para as mais vulneráveis.

    Alguém pode alegar que se vacinar ou não é uma escolha individual e que diz respeito a cada pessoa. “Se vacinar ou não é uma escolha de cada uma”. Mas as escolhas de uma pessoa podem afetar outras pessoas. Uma pessoa não vacinada tem uma probabilidade muito maior de contrair o vírus e contagiar outras pessoas. Isso é ainda mais sensível quando sabemos que existem pessoas que, por questões de saúde (como pessoas imunodeprimidas) não podem se vacinar e o vírus ainda representa para elas uma ameaça muito maior.

    Recusar-se a fazer algo que é de mínima consequência para si, mas que ao não fazer ameaça a vida de outras pessoas e a saúde coletiva, é uma postura próxima ao pensamento de extrema-direita, que defende uma suposta “liberdade individual” inconsequente que prejudica a coletividade.

    Sim, a indústria farmacêutica é uma das instituições mais perversas da atualidade, lucrando muito com a saúde e doença de bilhões de pessoas. Deixando aquelas pessoas que não podem pagar pelos seus tratamentos morrerem enquanto seus CEOs e acionistas se esbaldelam no luxo.

    E sim, precisamos lutar contra os avanços autoritários dos Estados que buscam ampliar suas formas de controle a todo custo, e em muitos lugares do mundo, aproveitaram a ocasião para aumentar o controle sobre os corpos que ali habitam e a repressão sobre movimentos sociais.

    Mas perceber e lutar contra esses problemas é diferente de ignorar os benefícios que a medicina e as vacinas nos trazem. Não faz sentido ignorar o conhecimento médico e os recursos que nos estão disponíveis no momento para salvar vidas. Nossa luta não é contra a medicina, mas para tirar o conhecimento médico das mãos de uma pequena elite e criar uma verdadeira medicina popular, não é acabar com a fabricação de vacinas e remédios, mas coletivizar os laboratórios e fábricas e distribuir esses medicamentos a quem precisa, não a quem pode pagar.

    Se recusar a tomar vacina quando isso pode prejudicar a saúde de outras pessoas mas traz pouco ou nenhum prejuízo pessoal é incoerente com movimentos que buscam o bem-estar coletivo e não apenas a liberdade, mas também a responsabilidade individual.

  • Olá!

    Chegando devagarzinho pra não assustar ninguém.

    Será que consigo manter um blog?