Gênero é uma arma!

Capa do zine "O Gênero é uma arma"

Tradução do texto Gender Is a Weapon, de Sally Darity.

Recentemente, eu tava no ônibus, e um cara mais ou menos da minha idade entrou e se sentou na minha frente. Ele e mais algumas pessoas estavam olhando pela janela do ônibus para uns homens vestindo vestidos vermelhos. A gente não sabia por que eles estavam usando vestidos, mas o cara na minha frente disse: “Isso dá medo.” Outro cara disse: “Tanto faz, contanto que não entrem no ônibus”. Eu queria dizer “o que há de tão assustador em homens de vestido?”. Mas, com medo de parecer sapatão demais aos olhos dele e sofrer alguma merda por isso, e com medo de que o esforço e o medo de confrontar alguém me fizessem chorar, não disse nada. Eu só fiquei pensando. O que torna um cara de vestido tão assustador? E o que na homofobia, transfobia ou como você quiser chamar, faz com que os homens se unam para falar mal disso, sem saber por que aquele cara estava usando um vestido? Há muitas maneiras pelas quais nos ensinam qual é o nosso gênero apropriado, e quando alguém se sente ameaçady por uma identidade ou expressão de gênero, podemos supor que aí reside a chave da nossa luta.

Capa do zine "O Gênero é uma arma"
Texto disponível em fomato zine para leitura em tela ou impressão.

Recentemente, eu tava no ônibus, e um cara mais ou menos da minha idade entrou e se sentou na minha frente. Ele e mais algumas pessoas estavam olhando pela janela do ônibus para uns homens vestindo vestidos vermelhos. A gente não sabia por que eles estavam usando vestidos, mas o cara na minha frente disse: “Isso dá medo.” Outro cara disse: “Tanto faz, contanto que não entrem no ônibus”. Eu queria dizer “o que há de tão assustador em homens de vestido?”. Mas, com medo de parecer sapatão demais aos olhos dele e sofrer alguma merda por isso, e com medo de que o esforço e o medo de confrontar alguém me fizessem chorar, não disse nada. Eu só fiquei pensando. O que torna um cara de vestido tão assustador? E o que na homofobia, transfobia ou como você quiser chamar, faz com que os homens se unam para falar mal disso, sem saber por que aquele cara estava usando um vestido? Há muitas maneiras pelas quais nos ensinam qual é o nosso gênero apropriado, e quando alguém se sente ameaçady por uma identidade ou expressão de gênero, podemos supor que aí reside a chave da nossa luta.

O gênero é usado contra nós, mas também podemos usá-lo para libertar umys aus outrys e a nós mesmys. Se começarmos a minar as regras e as restrições de gênero, teremos mais sucesso na luta contra o patriarcado e a dominação. Ao escrever isto, espero plantar sementes de rebelião de gênero, solidariedade e liberdade de gênero.

Aqui está um termo com o qual talvez você ainda não tenha se deparado: autodeterminação de gênero. Autodeterminação significa que cada pessoa ou comunidade tem a liberdade de decidir por si mesma como deseja viver e sobre as decisões que afetam suas vidas. No contexto de uma luta pela autodeterminação de gênero, significa “respeitar o direito de cada pessoa de fazer suas próprias escolhas em relação ao seu corpo, sua identidade, sua linguagem e a maneira como expressa seu gênero… Trata-se de… se comprometer a construir um mundo onde cada pessoa seja capaz de expressar e viver seu gênero e seus corpos de maneiras que sejam libertadoras, plenas e curativas… É nosso trabalho desafiar os inúmeros obstáculos que limitam a capacidade das pessoas de tomar essas decisões por conta própria.” Michelle O’Brien

Então, de que maneiras não temos autodeterminação de gênero? Para algumas pessoas, isso é ridiculamente óbvio; para outras, talvez não seja tão óbvio. De que maneira você não é completamente livre para determinar o que faz com seu corpo ou o que acontece com ele? De que maneira você não é livre para determinar sua própria identidade e expressão de gênero?

Os gêneros aceitáveis nesta sociedade são homem ou menino e mulher ou menina. Para a maioria de nós, um profissional da área médica determina nosso sexo no momento em que nascemos. Se nossos órgãos genitais forem ambíguos, eles poderão determinar ainda mais quem somos e alterar nossos corpos para se encaixarem no padrão masculino ou feminino sem nossa permissão. Então, a maioria de nós tem que usar rosa ou azul e, claro, muitos de nós sabemos como somos tratadys de maneira diferente durante o crescimento, dependendo de se foi determinado que somos homens ou mulheres. Muitas vezes, é determinado por nós o que vestimos, com o que podemos brincar, quais brinquedos são adequados para nós, no que devemos nos interessar, quais habilidades nos incentivam a ter, etc. Não só essas coisas nos são impostas, como também podemos sofrer punições de uma forma ou de outra se não nos encaixarmos de maneira precisa e aceitável nos padrões de masculino ou feminino. Se for determinado que somos homens, mas não somos masculinos o suficiente, somos chamados de maricas, viados, capachos, etc. Se for determinado que somos mulheres, mas não somos femininas o suficiente, somos chamadas de vadias, prostitutas ou sapatonas, ou que nunca teremos um namorado/nos casaremos (e, portanto, não temos valor). Ao nosso redor, somos coagidys a nos encaixar na caixa masculina ou feminina e nos ensinam como devemos nos encaixar; precisamos cumprir certos requisitos, começando por nossos corpos e incluindo nossa sexualidade, como agimos, como nos parecemos e o que valorizamos. Nos fazem acreditar que existe algo como um homem de verdade e uma mulher de verdade, e que devemos ser um ou outro. Estamos praticamente aprisionadys pelo gênero; embora possamos ter alguma liberdade, se não nos comportarmos adequadamente, há muitos agentes penitenciários tentando nos colocar no nosso lugar. Até que ponto escolhemos esse arranjo ou o nosso lugar nele? Como seria o gênero se tivéssemos autodeterminação de gênero?
Se concordamos que somos socializadys ou mesmo coagidys a nos encaixar em uma das categorias de gênero, talvez possamos concordar que, em muitos aspectos, ainda não temos escolha.

Será essa a ordem natural das coisas ou o poder desempenha um papel na divisão entre os gêneros? Pense por que a supremacia branca/o racismo existe e como a divisão entre pessoas brancas e outras raças é reforçada de diferentes maneiras. Não quero sugerir que a supremacia branca e o patriarcado afetem as pessoas ou funcionem da mesma forma, mas comparar os dois pode nos oferecer algumas percepções sobre como ambos se baseiam no poder e como se interligam.

GÊNERO E PODER

Acredito que o poder tem muito a ver com o motivo pelo qual essas divisões sociais existem e se mantêm. No caso do gênero, os homens, em geral, se beneficiam dessa divisão social. Aos homens é concedido mais acesso, mais privilégios e mais valor. Um homem precisa ser masculino para subir na hierarquia. Uma característica masculina fundamental que sustenta o patriarcado é a dominação. A masculinidade não envolve necessariamente dominação, mas a dominação é uma característica masculina altamente valorizada. O patriarcado permite e incentiva os homens, em geral, a controlar coisas consideradas mais fracas ou inferiores na hierarquia. Alguns homens chegam a usar o modelo de masculinidade patriarcal contra outros, acusando-os de serem menos que homens (ou seja, insultos que sugerem homossexualidade ou feminilidade), o que é outro exemplo de como a dicotomia de gênero se baseia no poder.

Ser o provedor da família tem sido visto como o papel adequado do homem, mas as dificuldades econômicas decorrentes do racismo e do capitalismo causaram situações em muitas famílias negras e famílias pobres nas quais os homens não conseguem ganhar dinheiro suficiente. O patriarcado (e os homens brancos que se aliam a ele) obrigou muitos homens e mulheres negros a defender a masculinidade dos homens negros no contexto do racismo patriarcal, o que reforça a divisão entre homens e mulheres. Em Killing Rage, bell hooks escreveu:

“Como a maioria dos homens negros (assim como mulheres e crianças) é socializada para equiparar masculinidade com justiça, a primeira questão em nossa agenda deve ser o reconhecimento individual e coletivo de que a justiça e a integridade da raça devem ser definidas pela medida em que homens e mulheres negros têm a liberdade de se autodeterminar… [A justiça] só pode surgir quando os homens negros se recusarem a entrar no jogo — recusarem as definições patriarcais de masculinidade.”

Algumas autoras negras afirmaram que, devido à necessidade dos homens de defender sua masculinidade, lutar pela libertação de sua raça ou classe é uma prioridade em relação à luta pela libertação das mulheres (o que, por ser prejudicial à luta contra o racismo e favorecer o patriarcado, beneficia os homens brancos duplamente).

Tendo que lidar com os padrões patriarcais dentro de seus próprios grupos étnicos, as mulheres negras também passam, em diferentes graus, pela exotização, sexualização e outras formas de desumanização, além de serem tratadas como propriedade pelos brancos. É a experiência de muitas mulheres que somos ensinadas que a feminilidade ideal é a feminilidade branca e economicamente privilegiada. Pense nas imagens de mulheres na mídia e em quem é favorecida e quem não é. Pense em como ter dinheiro e tempo afeta a capacidade de uma mulher de expressar adequadamente sua feminilidade.

O patriarcado significa basicamente o domínio dos homens. Isso funciona de maneiras abstratas e sistemáticas, bem como de forma concreta entre os indivíduos. Trata-se de discriminação e, especialmente, de controle e desvalorização. Ele se manifesta como abuso, violência contra as mulheres, desrespeito, controle da sexualidade e dos corpos das mulheres, objetificação e padrões de beleza, e a desvalorização das contribuições, pontos de vista e opiniões das mulheres, etc. Muitas feministas têm argumentado simplesmente que as mulheres são as oprimidas e os homens são os opressores.

Obviamente, a questão é mais complexa do que isso. É verdade que são os homens (brancos, heterossexuais, sem deficiência e ricos) que detêm o controle, mas algumas mulheres, pessoas queer, pessoas de cor e outras minorias estão conseguindo acesso a alguns desses privilégios de forma mais ampla do que antes. Elas precisam aderir ao sistema para entrar nele? Precisam dominar outras pessoas para ganhar e manter essa posição? Certamente, o sistema do qual elas se beneficiam se baseia na exploração, na ganância, na competição, no imperialismo e na hierarquia das divisões sociais. Esse sistema funciona melhor ao permitir que um pequeno número tenha acesso a parte da riqueza e do poder da elite (e que mais pessoas tenham acesso em menor grau). Isso ocorre porque a promessa/possibilidade (muitas vezes falsa) de riqueza e poder, ou pelo menos de uma vida mais confortável (assim como, no outro lado da moeda, a realidade de trabalhar sem parar e enfrentar dificuldades apenas para sobreviver), impede as pessoas de resistir ou lutar contra os sistemas de poder e tudo o que os sustenta. Além disso, a escassez de riqueza e poder faz com que as pessoas com qualquer privilégio se sintam ameaçadas, e se agarrem a qualquer migalha de poder que possam, mantendo essas hierarquias sociais no lugar. O capitalismo, a supremacia branca e o patriarcado, tendo a dominação como base, funcionam de maneiras interligadas.

Devido à complexidade com que o patriarcado deve ser encarado, devemos considerá-lo não apenas como o domínio dos homens, mas também como o domínio das pessoas que se associam e praticam o que constitui um valor da masculinidade patriarcal: a dominação. Ou talvez devêssemos usar o termo “patriarcado” apenas quando falamos do domínio dos homens, e o termo “opressão de gênero” nos demais casos (quando se trata de gênero). Os homens não são os únicos que se beneficiam da opressão de gênero. Homens e mulheres heterossexuais se beneficiam da opressão das pessoas queer. Pessoas que se encaixam melhor do que outras nas caixas de gênero apropriadas se beneficiam da opressão das pessoas que não conseguem se encaixar nessas caixas.
Defendo que as divisões de gênero são, em grande parte, criadas no contexto do poder e que a fronteira traçada entre homens e mulheres é uma ilusão. Não estou argumentando que não há diferença entre homens e mulheres, mas que o gênero é mais um espectro do que uma dicotomia.
Talvez a metáfora da fronteira seja bastante útil. Ao refletir sobre a fronteira entre os EUA e o México, localizada a cerca de 320 km de onde moro, percebemos que ela, assim como muitas outras fronteiras nacionais, é criada pelo homem com o único objetivo de preservar uma diferença conceitual entre lugares e povos. Existem diferenças geográficas, povos e culturas distintos, mas as fronteiras sugerem que há uma diferença absoluta entre o que está de cada lado. Isso também torna invisíveis os povos indígenas e outros povos que vivem ao longo da fronteira. No interesse dos que estão no poder, as fronteiras criam uma mentalidade de “nós contra eles”, enquanto a realidade de nossas diferenças fora das relações de poder é insignificante.

Mesmo que você acredite que exista alguma diferença biológica ou essencial entre homens e mulheres que seja a causa de quão diferentes são as ideias de “mulher de verdade” e “homem de verdade”, é preciso reconhecer que há uma grande variedade de maneiras de ser mulher ou homem, e que existem pessoas que não se identificam com nenhuma das duas.

A ideia de que existe algum aspecto essencial da mulher que a torna diferente do homem pode ser contestada, em certa medida, pela enorme variedade de experiências de ser mulher. A condição feminina varia de acordo com a raça, a classe social, a idade, a orientação sexual, a capacidade, o tamanho e muito mais. Você consegue citar uma coisa que todas as mulheres (e mais ninguém) tenham em comum? Se sim, isso apaga a experiência de alguém (de alguém que seja intersexual ou transgênero, por exemplo)? O essencialismo, a ideia de que existem diferenças essenciais entre dois grupos, é um conceito problemático. Ele tem sido usado contra algumas raças não brancas para fins de ideias eugenistas — de que pessoas de cor tinham tendências criminosas ou menos inteligência e, por isso, mereciam ser esterilizadas à força. E, é claro, eram as mulheres, e não os homens, que tendiam a ser esterilizadas. Várias pessoas criticaram o essencialismo de gênero e os modelos de feminilidade baseados em privilégios de raça ou classe, como no caso do feminismo branco. “…o padrão hierárquico das relações de raça e sexo já estabelecido na sociedade americana simplesmente assumiu uma forma diferente sob o ‘feminismo’: …a forma de mulheres brancas escrevendo livros que pretendem tratar da experiência das mulheres americanas, quando, na verdade, concentram-se exclusivamente na experiência das mulheres brancas…” escreveu bell hooks em Ain’t I a Woman.

Não pretendo discutir sobre a natureza humana, mas sim situar as ideias de diferença no contexto do poder e trazer à tona as realidades das vidas que são marginalizadas ou tornadas invisíveis.

É fácil generalizar e também é mais fácil pensar em termos de categorias simples. É mais fácil justificar as divisões sociais e a opressão com a simplicidade, mas os seres humanos são complexos demais. Por que é que quem transcende as categorias de gênero representa uma ameaça tão grande (e, portanto, é alvo de violência e assédio)? Será porque o ato de não se conformar suficientemente aos padrões patriarcais de gênero atrapalha os sistemas de controle e dominação? O gênero é socialmente construído com base na ideia de que pode ser dividido simplesmente em duas categorias, e expô-lo de outra forma é minar os fundamentos da opressão de gênero.

Um bom exemplo de como o gênero é uma construção social é o caso dos pelos corporais. Pense na reação das pessoas diante de uma mulher com pelos nas axilas (ou um bigodinho). De alguma forma, ela é vista como uma ameaça, ou simplesmente como “anti-higiênica” — mesmo que os pelos cresçam naturalmente nessas regiões. Não é interessante que nosso conceito de corpo feminino seja um corpo depilado? Podemos concluir que essa ideia de gênero não se baseia em nenhum conceito real, natural e biológico de diferença de gênero, mas sim na dominação patriarcal e capitalista. (Sim, as mulheres tendem a ter menos pelos no corpo do que os homens, mas algumas mulheres são mais peludas do que alguns homens.)

Devemos considerar como as divisões de gênero foram historicamente moldadas dentro das relações de poder. Uma dimensão interessante do conceito de gênero é a teoria de Butch Lee e Red Rover sobre as conexões entre capitalismo, raça e gênero, extraída de Night Vision:

“Entendendo que a raça foi politicamente construída pelo capitalismo para desempenhar papéis de classe, basta um pequeno passo para perceber que o mesmo se aplica ao gênero. A mentalidade arraigada do capitalismo de que essas coisas são, de alguma forma, determinadas naturalmente, fixadas biologicamente, é difícil de quebrar… essas pequenas diferenças físicas são apenas um ponto de referência para a vasta superestrutura da raça que o capitalismo mundial criou… Quando o capitalismo europeu remodelou o gênero sob seu domínio, fez isso em torno de classe e raça. As mulheres brancas deveriam ser artificialmente “femininas” — o que significava mais fracas, delicadas, dependentes, “brancas como a neve”, confinadas ao lar, cuidadoras dos homens, “sedutoramente” satisfatórias para a dominação masculina. Apenas as mulheres da classe alta e da classe média, a Senhora e a Dona de Casa, podiam verdadeiramente tornar-se essas mulheres artificiais, é claro. Por definição, as mulheres coloniais e da classe baixa foram excluídas, falharam no gênero, poderíamos dizer. A raça tornou-se gênero. Pois a construção da raça branca envolveu a desconstrução politizada das mulheres para que se encaixassem no “branco”. O eurocapitalismo remodelou artificialmente suas mulheres, tornando-as fisicamente mais fracas, domésticas e dependentes.”

Butch Lee e Red Rover também argumentam, no mesmo livro, que o capitalismo teve início com os julgamentos de bruxas — o genocídio das mulheres e a apropriação de seus bens pelo Estado. Ativistas, organizadorys, teóricys e outrys podem ficar dando voltas e mais voltas tentando determinar qual opressão veio primeiro, o que formou o quê, o que é mais importante combater, etc. Quem se concentra em classe e/ou raça muitas vezes deixa a discussão sobre a opressão de gênero para trás, se é que chega a mencioná-la. É necessário enxergar as interconexões, independentemente da opressão em que estejamos focando.

LIBERDADE PARA TODOS OS GÊNEROS

Nesse contexto de relações de poder, faz sentido que qualquer movimento de libertação aborde o complexo sistema de hierarquias. Restringindo nosso foco ao gênero, como podemos lutar pela liberdade de todos os gêneros?

Todos os gêneros?

“Somos um movimento formado por mulheres com características masculinas e homens com características femininas, travestis, homens e mulheres transexuais, pessoas intersexuais nascidas na zona de transição anatômica entre o feminino e o masculino, pessoas que misturam gêneros, muitas outras pessoas com variações de sexo e gênero, e nossys parceirys. Em suma, ampliamos a compreensão de quantas maneiras existem de ser um ser humano. Nossas vidas são a prova de que sexo e gênero são muito mais complexos do que o olhar de um médico na sala de parto sobre os órgãos genitais pode determinar, mais variados do que roupinhas rosa ou azuis. Somos oprimidys por não nos encaixarmos nessas normas sociais restritas. Estamos reagindo.
— Leslie Feinburg, TransLiberation

Aquelys de nós que agem e falam como se existissem apenas homens e mulheres deveriam examinar nossos pressupostos e ampliar nossa visão. Há uma variedade de maneiras de se identificar, de se comportar e de expressar o gênero. Com base nas experiências reais das pessoas, em vez de classificações científicas ou do pensamento patriarcal, o gênero é mais fluido do que binário.

Negar a fluidez do gênero é negar as experiências de muitas pessoas. Também é comum, em comunidades onde a não conformidade de gênero e a variação de gênero são marginalizadas ou invisíveis, supor que essas questões decorrem de privilégios raciais ou de classe, o que também significa negar as experiências de muitas pessoas e marginalizá-las ainda mais.

O gênero também está intimamente ligado à sexualidade.

Independentemente de alguém ter uma aparência ou agir de maneira considerada adequada aos padrões de gênero da nossa sociedade, a liberdade de fazer o que queremos ou de não fazer o que não queremos com nossos corpos e nosso amor é restringida de muitas maneiras. Portanto, a autodeterminação de gênero também deve incluir a liberdade de praticar a sexualidade consensual entre todos os gêneros.
Pense na opressão que alguém tem de enfrentar por não se identificar com o gênero que se espera que tenha, nem se comportar de acordo com ele. (Por que se espera isso?) Considere a segurança de uma pessoa que é trans, não-binária, queer ou qualquer outra identidade de gênero variante. Se uma pessoa deseja ou precisa viver como o “gênero oposto” ao que nasceu, sua capacidade de passar por esse gênero pode afetar sua sobrevivência (seja em termos de possível violência ou falta de um bom emprego, etc., ou ambos). Emi Koyama escreveu em “Manifesto Transfeminista”: “Como nossas identidades são construídas dentro do ambiente social em que nascemos, pode-se argumentar que a descontinuidade entre a identidade de gênero e o sexo físico de uma pessoa é problemática apenas porque a sociedade mantém ativamente um sistema de gênero dicotômico. Se o gênero de uma pessoa fosse um fator insignificante na sociedade, a necessidade de as pessoas trans modificarem seus corpos para se encaixarem na dicotomia de gêneros poderia muito bem diminuir, embora provavelmente não completamente.” Pessoas transexuais e transgênero frequentemente necessitam dos serviços da comunidade médica para “passar” (passar descreve a capacidade de uma pessoa transgênero de ser aceita como seu gênero preferido. O termo refere-se principalmente à aceitação por pessoas que o indivíduo não conhece, ou que não sabem que o indivíduo é transgênero — wikipedia). No entanto, da mesma forma que ser homossexual era/é considerado uma condição, muitas vezes diz-se que as pessoas dissidentes de gênero sofrem de “disforia de gênero” ou “transtorno de identidade de gênero”, com base em conceitos de “normal” e “anormal”. É também a comunidade médica que determina inicialmente nosso gênero.

OPRESSÃO DE GÊNERO INSTITUCIONALIZADA

É importante considerar como o establishment médico é uma instituição de opressão de gênero. Há uma história de desenvolvimento patriarcal e heteronormativo da medicina ocidental. A falta de respeito pelas mulheres e suas escolhas, a falta de pesquisas não sexistas sobre a saúde feminina, a negação de experiências femininas como a TPM, a falta de respeito pelas pessoas queer (chegando-se a considerá-las loucas ou doentes), falta de pesquisa adequada sobre a AIDS e de medicamentos a preços acessíveis, falta de respeito pelas pessoas intersexuais, mutilação não consensual da maioria/algumas pessoas intersexuais, circuncisão de meninos sem consentimento, regras rígidas sobre como as mães devem dar à luz seus bebês, proibição do aborto, contraceptivos arriscados e prejudiciais à saúde, falta de educação adequada e exames de rastreamento para o HPV, que pode causar câncer cervical, falta de respeito por pessoas transexuais e outras pessoas dissidentes de gênero (e assim por diante)… sem mencionar que ser pobre ou ter a pele morena agrava a falta de respeito e a falta de cuidados adequados e acesso. Este é um exemplo de opressão de gênero institucionalizada.

A opressão de gênero institucionalizada pode ser tão simples quanto ir ao banheiro. Muitys de nós nem precisamos pensar nisso. Ou talvez nos lembremos da história de como a lei da igualdade de direitos foi contestada porque se dizia que, eventualmente, homens e mulheres teriam que compartilhar banheiros públicos. E se você evitasse ir a um banheiro público porque teme pela sua segurança? Muitas pessoas transexuais, transgênero e outras pessoas dissidentes de gênero podem não conseguir passar pelo gênero apropriado para “pertencer” a um banheiro de um gênero ou de outro. A reação das outras pessoas é uma situação que pode envolver segurança física, assédio ou uma expressão estranha no rosto de alguém, mas é possível ser demitidy ou até mesmo presy por entrar no banheiro “errado”. Um relatório sobre banheiros no site do Transgender Law Center afirmava: “Os banheiros reforçam o sistema de gênero atual. Os banheiros são um lembrete estrutural diário de que devemos saber a cada momento se nos identificamos como mulher ou homem. Homem e mulher, essas são nossas únicas opções. Por que devemos dividir artificialmente a enorme diversidade de gênero em dois grupos? Por que é tão importante que façamos nossas necessidades apenas com pessoas que estão agrupadas no mesmo grupo que nós?”
E se você for dissidente de gênero e tiver que ir para a cadeia ou para a prisão? Pense em revistas íntimas, assédio, atendimento médico inadequado, abuso verbal e físico… E quanto ao emprego…?

Quase todas as instituições sociais se baseiam na suposição de que as pessoas podem e vão se encaixar adequadamente em suas caixas de gênero. Isso não é liberdade.

“A opressão contínua das mulheres prova apenas que, em qualquer binário, haverá um em cima e outro em baixo. A luta pela igualdade de direitos deve incluir a luta para desmantelar o binário”.
— Gender Outlaw

“Quando dizemos que estamos lutando contra o patriarcado, nem sempre fica claro para todos nós que isso significa lutar contra toda hierarquia, toda liderança, todo governo e a própria ideia de autoridade.”
— Peggy Kornegger, Anarquismo: a conexão feminista

Podemos estar aprisionadys pelo gênero, mas também podemos usar o gênero para nos libertarmos e libertarmos umas às outras. Devemos reconhecer as divisões rígidas e inflexíveis entre gêneros mutuamente exclusivos como falsas e refletir sobre como são usadas contra as pessoas. Essa divisão social dos gêneros, a dicotomia de gênero, é a base do patriarcado, da homofobia e da transfobia.

Devemos destruir a dicotomia de gênero, nos livrar do gênero? Em um ensaio intitulado “Politicizing Gender: Moving toward revolutionary gender politics” (Politizando o gênero: rumo a uma política de gênero revolucionária), a autora, Carolyn, escreveu:

“Para muitas pessoas antiautoritárias, pode ser tentador “destruir o gênero” ou “destruir os papéis de gênero”. Isso pode parecer lógico para algumas pessoas. No entanto, acredito que isso também leva a uma forma alternativa de autoritarismo… uma revolução de gênero só terá sentido se empoderar substancialmente a todys… O gênero deve ser libertado, mas todys nós devemos ter voz no que isso significa, não a partir de uma teoria abstrata e pré-determinada, mas de uma síntese das experiências reais das pessoas. A partir disso, acredito que veremos que muitas pessoas consideram os papéis de gênero libertadores, enquanto outras sofrem grave opressão por meio desses papéis. Qualquer estratégia voltada para a libertação deve manter a integridade de todas as nossas experiências e estar disposta a questionar como diferentes comunidades podem aceitar necessidades divergentes e antagônicas sem criar uma atmosfera de silêncios punitivos e violência real.”

A luta pela autodeterminação de gênero deve incluir o desmantelamento da dicotomia de gênero — mas não a ponto de as identidades de gênero serem substituídas pela androginia ou pela ausência de gênero, de qualquer identidade de gênero ser proibida, nem de as pessoas que se enquadram nos padrões aceitos de ser homem ou mulher serem menosprezadas. O desmantelamento da dicotomia de gênero é um processo de encarar a divisão social de gênero como baseada em relações de poder, de lutar contra esse poder, de aceitar uma variedade de formas de expressar e representar o gênero, de desestabilizar as ideias de um “homem de verdade” e de uma “mulher de verdade”, de respeitar as decisões das pessoas sobre como se identificam e que linguagem usam em relação à sua identidade (pronomes, rótulos, etc.). O que cada umy de nós pode fazer depende de nossa posição na hierarquia de gênero.

Reconhecer nossos privilégios onde eles existem, ouvir as outras pessoas, superar suposições, confrontar a dominação, lidar com os limites que nos foram impostos, ser desleal ao patriarcado e buscar nossas próprias identidades com a visão de um mundo sem a coerção da dicotomia de gênero e do patriarcado. As pessoas que são subjugadas pela opressão de gênero precisam se solidarizar umas com as outras. Aquelas que se beneficiam da opressão de gênero precisam perceber onde também são reprimidas pelas expectativas patriarcais e pela falta de opções de expressão. Precisamos identificar os fatores que ameaçam a estrutura de poder patriarcal e usá-los contra ela. Precisamos nos unir contra a masculinidade patriarcal. É necessário minar o acesso que os homens presumem ter aos privilégios e ao controle.

Devemos perceber as interligações entre as opressões e estabelecer como nosso objetivo a libertação de todas as pessoas. Michelle O’Brien escreveu em um artigo intitulado “Gender Skirmishes on the Edges; Notes on gender identity, self-determination and anticolonial struggle” (Escaramuças de gênero nas margens; Notas sobre identidade de gênero, autodeterminação e luta anticolonial),

“Uma política revolucionária de autodeterminação deve também consistir em reconhecer e desafiar os sistemas do capitalismo supremacista branco e do neocolonialismo. A autodeterminação não se resume a tomar decisões individuais — trata-se de comunidades, classes e nações assumirem o controle de seu próprio destino, libertando-se das garras da dominação do capital, da violência estatal e da colonização. Uma política de gênero radical e substantiva deve desafiar todas as estruturas de dominação, pois elas estão profundamente interligadas em todos os aspectos de nossas vidas e em todo o planeta.”

Precisamos abordar e enfrentar a opressão de gênero institucionalizada. Algumas pessoas acharão necessário pensar em termos de reforma, enquanto outras buscarão justiça e soluções por meio da ação direta. Devemos refletir sobre nossas próprias atitudes e ações, sobre as que ocorrem dentro da nossa comunidade e sobre a opressão de gênero em uma escala mais ampla.

A autodeterminação é uma liberdade que, em última instância, exigiria que não fôssemos mais governadys pelo Estado nem por ninguém mais. O Estado, que personifica a dominação, busca controlar nossos corpos e nossas vidas. Nenhuma autoridade pode nos dizer quem somos, e ninguém tem o direito de controlar nossos corpos.

Não podemos simplesmente dizer que lutar contra o patriarcado é uma luta pela liberdade de mais da metade da população. Sabemos que não tem sido o objetivo de todas as feministas libertar todas as mulheres; que o racismo e o classismo têm permeado grande parte do movimento feminista dominante. No entanto, nós, que somos feministas, sabemos que o movimento feminista tem sido criticado como racista mais do que os movimentos baseados em raça e classe têm sido criticados como sexistas. Sabemos também que muitas feministas (particularmente as anarco-feministas) lutaram e continuam lutando pela libertação de todas as opressões.

Minha visão do anarcofeminismo é a de um feminismo que é anarquista, não apenas no sentido de que o objetivo não é a “igualdade” com os homens dentro de um sistema baseado na dominação, mas também no sentido de que questionamos as bases sobre as quais as divisões e os papéis de gênero são moldados pelo poder.

Não faz sentido que a autodeterminação de gênero e a libertação do patriarcado possam ser tão facilmente deixadas de lado nas discussões sobre poder e ausentes dos movimentos de libertação. Enquanto o patriarcado não for abordado, a dominação será um valor central em nossa sociedade, as pessoas serão oprimidas com base em seu gênero ou sexualidade, e a liberdade não será possível.

A opressão de gênero é uma opressão incrivelmente antiga. É provável que a relutância das pessoas em abordá-la em uma escala maior se deva ao fato de ser algo tão assustador. Como podemos mudar atitudes arraigadas, a maneira como fomos ensinadys a pensar e agir? Outra dimensão difícil desse problema é que, para muitys de nós, a opressão de gênero é uma experiência muito pessoal. Como podemos empoderar a nós mesmys e a todys para lutar contra a opressão de gênero? Essas são questões sobre as quais precisamos pensar, conversar e criar estratégias.


Outras leituras:
  • “Politicizing Gender: Moving toward revolutionary gender politics” by Carolyn: www.spunk.org/library/pubs/lr/sp001714/gender.html
  • “Gender Skirmishes on the Edges; Notes on gender identity, self-determination and anticolonial struggle” by Michelle O’Brien: www.deadletters.biz/skirmishes.html
  • “Intersex and Trans Demands” www.geocities.com/gainesvilleavengers/intersextransdemands.htm
  • My Gender Workbook by Kate Bornstein
  • TransLiberation by Leslie Feinberg
  • Transfeminist Manifesto by Emi Koyama www.transfeminism.org/pdf/tfmanifesto.pdf
  • “Politics of Safety in Women-Only Spaces: An Opening Statement for the Dialogue” www.eminism.org/readings/bitch-mwmf.html
  • Trans/Gender Variant in Prison Committee (webpage) www.prisons.org/TIP.htm
  • Sylvia Rivera Law Project (webpage) www.srlp.org/ (check out the issues section)
  • Intersex Society of North America (webpage) www.isna.org/
  • The Will to Change by bell hooks
  • Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity by Bruce Bagemihl
Fediverse reactions

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *